quinta-feira, 24 de julho de 2008

As duas faces da moeda

O mundo é complexo. Fazemos escolhas a todo momento. E cada uma dessas situações são vivenciadas por nós através de duas dimensões que experimentamos simultaneamente: a alegria pelo que o caminho escolhido nos proporciona e a renúncia ao que o outro caminho poderia nos oferecer. Às vezes a escolha se apresenta como uma mudança de estrada e, nesse caso nem sempre é fácil renunciar àquilo que era nosso por um bom tempo no caminho antigo. Mas também existem situações em que renunciamos a algo que nos trazia sofrimento em favor de um caminho mais brando. E também nem sempre fazemos as melhores escolhas, optando muitas vezes pelo pior.
Viver é realmente uma atitude complexa. Diante da difícil missão de fazer escolhas, o importante é saber lidar com o que nos fere e com o que nos afaga. É descobrir que somos seres compartimentados e que cada compartimento requer níveis diferentes de escolha. Às vezes somos feridos dolorosamente em um determinado aspecto de nossas vidas, vítimas de nossas próprias escolhas ou da escolha de outros. Podemos permitir que os danos vazem para outros compartimentos de nossa vida, impregnando todo o nosso ser como um câncer. Mas podemos descobrir que cada compartimento é importante mas não é o todo. Que é importante manter os outros compartimentos isolados do compartimento ferido e assim podermos seguir em frente.
O que não podemos fazer de modo algum é deixar de fazer escolhas, por medo de ferir ou ser ferido. Um ser humano que não faz escolhas morre à beira da estrada sem ter realização alguma em sua vida. Devemos aproveitar bem a alegria da boa escolha e a sabedoria presenteada pelas consequências da má escolha. Saborear o caminho novo e meditar sobre o caminho antigo. Sobre o caminho que não tomamos. Aliviar o sofrimento não significa ignorá-lo. Mas compreendê-lo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Optando pela Missão


Diante do abismo, que só podia ser ultrapassado através da frágil ponte, o homem decide abrir mão de seu tesouro, ainda que isso provoque dor e tristeza. Mas para ele, a missão era mais importante. Assim, ele prossegue em sua viagem.

Por várias vezes, Jesus nos propõe deixar tudo o que nos vincula aos valores do mundo por uma causa maior. Ele afirma, categoricamente, no Evangelho de Mateus, capítulo 19 que “todo aquele que por causa dEele deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”.

O vínculo com a posse e a vivência junto aos bens com os quais nos cercamos provoca uma série de sentimentos e sensações: Prazer, ciúme, possessividade, ambição, tristeza, euforia, medo, raiva, atração, excitação... Somos humanos e os sentidos são o nosso meio de contato com o mundo. Tudo o que faz com que nos relacionemos com o que é externo a nós é perceptível pelos sentidos. Mesmo Deus se deixa perceber através do contato com a sua criação. São os sentidos que despertam as paixões e essas são as grandes desafiantes da razão. Mas a adesão ao mistério do Reino de Deus, que não está ao alcance das mãos, dos olhos, do olfato ou do paladar exige que tenhamos uma capacidade a mais. A fé.

Não a podemos adquirir por nós mesmos. É um dom. Uma virtude sobrenatural infundida por Deus. Mas também uma adesão livre da razão a uma realidade que não pode ser medida por uma sensação, ainda que nos sejam dados pelo Espírito sinais exteriores claros que a revelam. Ter fé é saber que apesar da aparência frágil da ponte e da profundidade do abismo, caminhar por ela até o outro lado é a melhor coisa a se fazer. A decisão de atravessá-la é precisamente o ato de crer. Abandonar a segurança de uma vida confortável em favor de um objetivo que não se apresenta imediatamente aos nossos olhos e não nos proporciona nenhum benefício sensível parece contrário à lógica. De fato, o ato de crer obedece a uma lógica diferente daquela com a qual estamos acostumados. O Catecismo afirma que “as verdades reveladas podem parecer obscuras à razão e à experiência humanas, mas a certeza dada pela luz divina é maior que a que é dada pela luz da razão natural” (CIC 157b).

Ter fé é perceber os sinais que nos levaram até à situação em que nos encontramos. E compreender que, se fomos levados até a beira do abismo, não foi para estacionarmos no meio da viagem sem ter chegado a lugar algum. É compreender que os meios não são mais importantes que o fim. E, ao final da viagem há algo muito superior a tudo aquilo que possamos ter conquistado durante a caminhada. Ter fé é entender que a vida ao redor é circunstancial. Que passamos pela vida como peregrinos, rumo a uma pátria melhor. E, como em uma grande caravana, estarmos sempre dispostos a levantar aquele que cai no meio do caminho.

Todos os grandes momentos de nossa fé foram marcados pela caminhada constante e resignada. Abraão sai de Harã para Canaã. Moisés sai do Egito para a Terra Prometida. Jesus, no ventre de sua mãe, parte de Nazaré para vir ao mundo em Belém. Depois segue ao Egito. Depois ao Templo em Jerusalém muitas e muitas vezes. E, em sua vida pública está sempre na estrada até chegar ao seu grande abismo, cuja beira é o Getsêmani e cuja travessia é a cruz. Sua ressurreição é o outro lado do imenso abismo. Assim foi também com os Apóstolos, os mártires e tantos outros que abriram mão do tesouro em favor daquele bem maior. A vida eterna no Reino anunciada com amor pelo Senhor através dos inúmeros sinais que Ele nos deu como presentes.

Da fecundidade de Abraão e Sara à libertação do Povo Hebreu do Egito, dos Reis e Profetas que testemunharam esses sinais e prepararam o terreno para a vinda do Messias, da chegada do Cristo ao mundo em uma manjedoura humilde. Seus milagres, curas e palavras e, sobretudo sua morte e a grande vitória sobre ela no Dia do Sol. E todos os que testemunharam com a vida e com a morte a realidade desse caminho. São luzes que iluminam a travessia e nos dão confiança para alcançar o outro lado. São a certeza da realidade do Reino e de tudo o que ele significa. São o atestado da realidade de Deus que nos salva da escuridão e nos acolhe como filhos. Essa é a fé que recebemos. A fé é ponte. Leva-nos para frente. Põe-nos a caminho e nos faz Cristo para os que ainda vivem na incerteza. À medida que seguimos em frente, sem olhar para trás, vamos compreendendo o modo carinhoso com que Deus nos fala durante a viagem. E aquilo que deixamos para trás já não nos dói mais. Já não nos assombra. Nos impregnamos tanto da mensagem que portamos, que quem nos vê, enxerga o Verbo que anunciamos. O mesmo Verbo que se fez carne... E habitou entre nós.

Paz e bem.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O abismo, a missão e o tesouro

Um homem saiu para empreender uma missão. Já havia passado muito tempo desde que iniciou a viagem e ele andava então carregado de coisas que acumulara pelo trajeto. E todas essas coisas passaram a ser seu tesouro pessoal, fazendo suas bolsas pesarem em seus ombros. Levava consigo também mulas, que carregavam o que havia de maior e mais pesado. E ele seguia em frente em sua missão, que já não parecia ser o que havia de mais importante para ele. Era necessário também tratar da segurança de seu tesouro. Se, ao início da viagem ele andava rapidamente, agora seus passos eram lentos e cansativos. Certo dia deparou-se com um imenso abismo. Para fazer a travessia, havia apenas uma frágil ponte, com cordas desgastadas e madeira velha. O homem olhou para a continuação da estrada, do outro lado do abismo e olhou para seu tesouro. E um dilema saltou-lhe à mente: para continuar sua missão, era necessário abandonar seu tesouro. Para ficar com o tesouro, era necessário abandonar a missão.

Há um pressuposto no cristianismo que não pode ser ignorado. Somos enviados em missão. Somos marcados nos ouvidos e no coração pela voz de Cristo que nos incita a anunciar a sua boa notícia, a alegria de um Deus que se fez carne e derramou seu sangue por amor, vencendo a morte e nos adotando como filhos. A partir de nossa experiência de contato com essa realidade e após sermos mergulhados nos sacramentos – mistérios do Reino – experimentamos uma alegria incontida pela missão que nos foi confiada. Caminhamos decididamente em direção ao nosso objetivo, felizes e com passos firmes, certos de que a notícia da qual somos portadores é capaz de mudar tudo o que há à nossa volta. Essa notícia revela, sobretudo, que pertencemos a um Reino que transcende o mundo e alcança os braços de Deus. E é isso o que nos motiva a levar adiante a missão.

A vida, para além do cristianismo, é uma experiência contínua e cumulativa. É o caminho pelo qual passamos para cumprir a nossa missão. As estradas e cidades que surgem ao longo da viagem sempre nos oferecem algo que nos cativa e ao qual nos apegamos naturalmente. Pessoas, sentimentos, conquistas, acontecimentos e oportunidades que acabam por se constituir o tesouro que carregamos conosco. Nos afeiçoamos tanto a esse tesouro que ele passa a se identificar conosco ao ponto de não nos imaginarmos sem ele. Se, ao início da jornada, estávamos dispostos a sofrer as intempéries dos dias sucessivos em viagem como portadores da grande notícia, agora a notícia já não parecia tão grande assim. Contrapondo-se à dureza da viagem, havia o prazer proporcionado pelo desfrute daquela riqueza acumulada no caminho. A jornada não só parecia mais pesada, mas se configurava como uma insanidade. Ainda assim, seguimos viagem, reclamando das bolhas nos pés e da grande distância entre uma pousada e outra. Não demorará muito até nos encontrarmos diante do abismo que nos fará escolher entre o tesouro acumulado e a concretização de nossa missão.

A grande pergunta é: Quando esse momento chegar, o que será mais importante para nós? A missão, ou o tesouro?

Paz e bem.

Estevan Gracia Gonçalves

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Sobre o perdão

Pensei em perdão. E fiquei imaginando quantas vezes utilizei essa palavra como um banal sinônimo de desculpa. Como se o perdão estivesse relacionado apenas com o ato de anular a culpabilidade de quem é seu beneficiário. A palavra "desculpar" pressupõe desobrigar alguém de seu débito, ao passo que o perdão encontra, em suas raízes, um significado maior. Ela tem origem no latim Per Donum, o dom em sua plenitude. O dom é algo ofertado, colocado à disposição, um presente. O ato de perdoar compreende uma doação incondicional de si mesmo em favor daquele que o recebe, o perdoado. Enquanto a desculpa não passa de uma mudança de condições, o perdão é um ato que nos esvazia de nós mesmos em favor do próximo.

O perdão não exige necessariamente que o perdoado seja depositário de alguma culpa. O perdão não busca justificativas. Colocar-se a serviço, exercitar o amor sem reservas, sem desânimo e sem restrições, procurando ser o melhor para quem necessita é praticar perdão. Desse modo, as palavras de Jesus a Pedro, mandando-o perdoar setenta vezes sete adquire um colorido novo. Trata-se de se dedicar a amar incondicionalmente tantas vezes quantas forem necessárias. Perdoar é um ato intimamente relacionado ao dever Cristão de amar o próximo. Ao perdão, o catecismo se refere como "esse amor que ama até o extremo do amor" (CIC 2843).

Se vinculamos o perdão ao apagar da culpa de alguém, é porque o ato de amar não comporta ofender-se ou magoar-se. Quem ama a ponto de doar-se por completo não se ressente, mas compreende que por trás da ofensa há alguém necessitando de atenção, cuidado e cura. Olhar assim para quem nos ofende é olhar com os olhos de Deus, que nos enxerga para além de nossas imperfeições. É sobretudo esse o sentido das palavras ditas na oração do Pai Nosso: "Perdoai nossas ofensas assim como nos perdoamos a quem nos tem ofendido".

Pode-se compreender melhor agora a necessidade da Cruz. Através dela, Deus doou-se sem medidas. E, somente um ato de amor extremo através de uma entrega incondicional e gratuíta é capaz de um tamanho resgate. Deus, ciente de que para o homem não há nada mais extremo do que a morte - a nossa última consequência - quis entregar-se a esse limite. E, mais ainda, vencer o limite, nos libertando e nos acolhendo. Não foi um simples apagar de culpas, mas sobretudo um ato que culmina em uma adoção filial. Assumir nossas dívidas atraindo-as para si faz parte do seu modo de nos amar sem medidas, é apenas parte do resgate. Através de seu ato Deus quis eliminar definitivamente a distância que nos separava dEle. Quis abrir para nós as portas do Reino. Ele veio a nós, nos colocou um anel no dedo e nos abraçou.

Paz e bem.

Estevan Gracia Gonçalves.

domingo, 28 de outubro de 2007

Deus, o tempo e eu: relações

Olho pela janela - chuva. Percebo, no cinza escuro que esconde o horizonte, um raio de luz buscando o solo e o vento que aproxima aquelas nuvens ferozes de minha casa. Após o relâmpago, uma breve contagem e o estrondo. O trovão diz a que distância está a tempestade e a cortina, balançando-se para dentro da sala revela qual o tempo restante para sua chegada. Em casa, apenas o silêncio de uma televisão desligada e o barulho da geladeira, imperceptível aos ouvidos acostumados. Uma vida que segue os mesmos padrões do céu que se precipita um dia e, em outro brilha, azul e limpo. Para além dos acontecimentos que permeiam o dia e a vida, Deus. Além do tempo, Deus. Antes do tempo, Deus. Imerso no mundo eu, vagando entre dias de tempestade e sóis. E Deus, que não se vê, fala. Ouço? Nem sempre...

Passam-se os dias, corre a vida pelas veias e diante dos olhos. Cada segundo é único e jamais volta. Existe apenas no tempo de sua própria duração, fadado à lembrança ou ao total esquecimento. Sou mais que o segundo, com sua existência efêmera, mas igual a ele em sua transitoriedade, enquanto estiver impregnado de mundo e carne. Nuvem que passa, violenta, trazendo em seu coração raios que deixam marcas na terra e se derrama em água. Ou nuvem que simplesmente caminha silenciosa até que de repente se dissipa. E Deus, que não se vê, chama. Respondo? Nem sempre...

Deus e eu. Entre nós, o tempo. Torna a terra um céu com ventos e a mim, chuva. Eu me precipito em gotas até que não reste nada de mim que não tenha ainda sido engolido pelos rios e pelo mar. Deus, montanha. Deus, cume. Eu, nuvem e água. Perto da montanha, eu, gelo. Eu, neve. Eu, eterno. E Deus, que não se vê, espera. Eu chego? Desejo.
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Estevan Gracia Gonçalves